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Gilmar Ortiz de Souza
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  1. Colunista: Gilmar Ortiz de Souza
    Cidade: São Bernardo do Campo
    Data: 16/09/2003

    Gestão de Segurança

    Para poder falar de sistemas de gestão de segurança preciso antes explicar minha origem e retornar a um passado recente. Comecei a atuar na área de segurança do trabalho em 1998 depois da ocorrência de uma série de acidentes gravíssimos na minha empresa. Na época eu estava atuando como engenheiro de produção na área de fabricação de cabina bruta mas já havia participado da implantação de sistemas de gestão de qualidade (ISO 9000, GQT, etc.) e de produtividade (Kaizen, 5S, etc.) e por isso mesmo fui “escolhido” para participar da implantação de um novo sistema de gestão de segurança, particularmente na época na gerência onde atuava (Montagem Bruta e Pintura de Cabinas).

    Na época ocorreu uma verdadeira revolução na nossa empresa e até foi criada uma gerência para a Segurança do Trabalho que por sua vez contratou a consultoria da Dupont para implantação de um sistema de gestão unificado. Uma das orientações da Dupont foi a descentralização da responsabilidade pela segurança do trabalho, a dita “responsabilidade de linha”, onde a produção deveria assumir uma série de atividades que até então pertencia ao SESMT. Assim, análises de acidentes e incidentes, inspeções de segurança, diálogos de segurança, reuniões de comitês de segurança, análises de riscos, etc., passaram a ser feitos pelo pessoal de produção. Era necessário haver um controle sobre estas atividades e assim surgia a necessidade também da implementação de um sistema de gestão próprio. Cada diretoria então definiu um sistema de gestão que deveria no mínimo obedecer o sistema de segurança da empresa. Dependendo do grau de riscos, algumas diretorias definiram que deveriam estabelecer medidas de controle adicionais, e aí surgiram sistemas de gestão particulares das diretorias. Na época a nossa diretoria adotou o sistema de gestão implantado na gerência onde eu atuava e de lá para cá este sistema de gestão tem sido utilizado e aprimorado.

    É evidente que ao desenvolver este sistema acabei utilizando todas as minhas experiências em sistemas de gestão anteriores. Assim, conceitos de GQT (Gerenciamento pela Qualidade Total), Kaizen, ISO 9000, etc., mensuráveis acabaram sendo incorporados. Na época freqüentei também diversos cursos (além do curso de Engenharia de Segurança) de sistema de gestão, tais como o curso de “Administração Moderna de Segurança” da DNV e BS 8000 da Bureau Veritas, e é claro que alguns itens destes cursos, além de itens do programa “stop” da Dupont acabaram contribuindo para o desenvolvimento deste sistema. Também não estou querendo dizer que este é o melhor sistema de gestão de segurança. É apenas um sistema de gestão cujo mérito maior é poder visualizar o desempenho com indicadores preventivos. Pelos resultados obtidos posso garantir que foi um sucesso na minha área, mas não posso garantir que dê certo em todas as áreas de todas as empresas.

    Na verdade, cada empresa e no caso de empresas grandes como a em que trabalho, as áreas possuem características e culturas próprias que dependem (e muito) do gestor. Cada sistema de gestão deve ser desenvolvido em função destas características e o sucesso (ou o fracasso) vai depender diretamente da participação do responsável pela área. Como, normalmente, este responsável não é um especialista em segurança do trabalho, a aplicação deste sistema vai depender da sua praticidade.

    O principal item de um sistema de gestão de segurança (e nisto TODOS os sistema de gestão concordam) é a necessidade de ser implementada uma “Política de Segurança” na empresa. E esta política não pode ser copiada. Ela deve ser desenvolvida dentro da empresa em que deva ser implementada. De preferência, ouvir as opiniões de todos os setores e níveis organizacionais para que ela seja de fato abrangente e revele a real cultura da empresa.

    Uma vez definida a “política de segurança” da empresa, todos os procedimentos e ferramentas a serem utilizados tem que ser coerentes com esta política. Um dos itens constantemente utilizado nos sistemas de gestão é a valorização do ser humano ou do “colaborador”. Qual o indicador que mais reflete isto do que o treinamento dos funcionários ? O acompanhamento destes treinamentos, seja ele através de palestras, cursos, diálogos de segurança, reuniões, filmes, peças teatrais, informativos, etc, podem perfeitamente ser mensurados. Evidente que esta não é a única ferramenta de um sistema de gestão de segurança mas é uma das mais importantes. Aliás, segurança do trabalho é isto, uma união de uma série de ferramentas cujo conjunto resultará no sucesso do programa.

    Um outro item muito importante é o papel desempenhado pelos supervisores de linha. É obvio que além do fator legal (pela lei o chefe é o responsável pela segurança do subordinado) é absolutamente necessário estabelecer um indicador para se observar que de fato, isto é o que está sendo obedecido. O estabelecimento de “comitês” de segurança nos diversos níveis (diretorias, gerências e supervisões) onde reuniões devem ser realizadas com o único propósito de serem discutidas as ações a serem realizadas em segurança. Nestas reuniões devem ser discutidos os acidentes e incidentes ocorridos, os itens pendentes, os procedimentos a serem estabelecidos, etc. É imperativo estabelecer metas para uma quantidade mínima destas reuniões que devem ocorrer de acordo com os riscos inerentes a cada área.

    Um outro item que é fundamental em qualquer sistema de gestão são os procedimentos documentados. Muito mais do que atender a lei (NR1) os procedimentos devem ser estabelecidos para que todos (e aqui são todos mesmo) atuem dentro de um padrão. Assim, devem ser descritos os procedimentos administrativos, instruções de segurança na produção (as famosas “ordens de serviço”), avisos de orientação, diálogos de segurança, jornais, informes, quadros, etc.

    Mas é obvio que não adianta nada estabelecer procedimentos documentados e poucos obedecerem (ou conhecerem). Um trabalho forte na divulgação destes procedimentos deve ser feito e até uma auditoria do cumprimento deste item para ser verificada além da eficácia , uma análise da aplicabilidade destes procedimentos. Todos conhecemos a famosa frase de que “Balcão de boteco e papel aceita qualquer coisa escrita”. Ou seja, devemos saber se de fato os procedimentos estabelecidos são realmente cumpridos. E se não são, o por que não. Alguma razão certamente existe.

    Neste ponto, insisto que auditorias são fundamentais. Sejam elas inspeções de segurança, análise de condições inseguras, atos que não sejam condizentes com os procedimentos estabelecidos, ou seja lá o nome que se dê a isto. O fato é que é de imperativa importância que estes padrões sejam mensurados. São ferramentas preventivas que podem determinar os locais que podem necessitar de uma atuação mais intensiva.

    Um cuidado adicional com os indicadores de acidentes devem ser tomados para que esta ferramenta não seja indevidamente usada e sim seja só considerada como um indicador de desempenho e não como meta a ser atingida. Experiências neste sentido me fazem ser um descrente neste indicador como meta. Não posso generalizar mas a não notificação de acidentes em nosso país é um fato. E o cumprimento de metas acaba contribuindo para que esta subnotificação ocorra. E acaba contribuindo negativamente para uma coisa muito mais importante que é o não estabelecimento de ações para evitar a reincidência dos acidentes ocorridos e não comunicados. Neste sentido devo dizer da importância da notificação dos quase-acidentes (incidentes) ocorridos. É importante não só quantificar a ocorrência como também analisar causas e propor ações pois ocorrências deste tipo podem indicar de que a área está preocupada com estes acontecimentos e que está querendo resolver estes problemas. Na verdade um indicador positivo e preventivo. Poucos gestores entendem assim.

    Falando em gestores, outra coisa fundamental é conhecer o que está acontecendo na área e não existe indicador melhor do que saber das pendências. Evidentemente que nas auditorias, análises de acidentes, incidentes, riscos, etc., acabam sendo identificadas ações que necessitam de acompanhamento (obviamente os itens que não são eliminados imediatamente). A observação dos itens que são registrados, eliminados e que estão pendentes é de fundamental importância para que o gestor possa avaliar o desempenho da sua área.

    Evidentemente também que estes itens devem ser classificados pelo grau de importância. Neste sentido entendo que a classificação da BS 8800 é a mais adequada. Classificar os itens de acordo com a probabilidade de risco (improvável, provável e muito provável) e a severidade do risco (levemente prejudicial, prejudicial e muito prejudicial) de forma que a classificação de risco fosse determinada em uma escala de importância (intolerável, substancial, moderado, tolerável e trivial) é fundamental para que se tenha uma hierarquia na resolução dos itens e na provisão de recursos.

    Evidente também é a necessidade do cumprimento da lei. Programas como o PPRA, PCMAT, PCMSO e demais leis devem constar no sistema de gestão. Programas adicionais do tipo Ergonomia devem receber uma atenção especial (de preferência analisados na fase de elaboração do projeto).

    Todo sistema de gestão deve prover métodos de melhoria contínua. Por esta razão que é importante que os indicadores sejam mensuráveis. O estabelecimento de metas destes indicadores e o acompanhamento através de indicadores é fundamental para o sucesso de qualquer sistema.

    É obvio que não tenho a pretensão de esgotar este assunto aqui, mas de qualquer maneira acredito que estas informações podem ser úteis a outros profissionais da área. Caso alguém queira falar mais a respeito estou a disposição.

    Gilmar Ortiz de Souza
    Engenheiro de Segurança formado pela FAAP e responsável pelo sistema de gestão da Divisão de produção de Veículos Comerciais da DaimlerChrysler do Brasil Ltda.
    gilmarortiz@netsbc. com.br



  2. Colunista: Gilmar Ortiz de Souza
    Cidade: São Bernardo do Campo
    Data: 24/09/2003

    Bolinho de Polvilho

    Fugindo um pouco do tradicional da nossa área, vou contar um “causo” que tem tudo a ver com segurança do trabalho.

    Minha sogra, dona Olívia – que é mineira nascida na região de Ponte Nova - faz um bolinho de polvilho que é uma delícia. É parecido com aqueles biscoitos de polvilho, porém mais consistente. Feito com polvilho de mandioca, para serem servidos com café ou com cerveja, realmente imperdível. Como a minha sogra gosta de “fabricar” o próprio polvilho, já me vi em algumas enrascadas devido ao fato de andar visitando algumas roças de mandioca, mas isto é assunto para outra história...

    Muito bem, acontece que um vizinho da minha sogra experimentou o tal bolinho e gamou. A mulher dele, querendo fazer os gostos do marido, insistiu tanto que minha sogra acabou passando a receita para ela fazer o tal bolinho. Mas minha sogra esqueceu de mencionar que teria que colocar o bolinho no óleo frio para fritar. Um detalhe muito importante que acabou se não tendo conseqüências trágicas, no mínimo foram cômicas.

    Então foi lá a vizinha da minha sogra fazer o bolinho. Na hora de fritar, como é prática em “quase” todos tipos de bolinhos, coxinhas, kibes e afins, colocou os bolinhos na panela com óleo “esturricando” de quente. Ocorreram então várias “explosões” que além de ferirem a vizinha da minha sogra, sujaram toda a cozinha da mulher. Imaginem o estrago. O marido dela, na hora que chegou do trabalho ainda teve a sorte de conseguir comer alguns bolinhos (ou o que sobrou deles) e ainda elogiou a mulher sem saber o que tinha acontecido pois a mulher dele já havia dado um jeito na cozinha e escondido as queimaduras para não “ficar mal”.

    Passou o tempo, o marido cobrando os bolinhos, a mulher dele dando desculpas, falando que dava muito trabalho descascar a mandioca, ralar, etc., até que não teve jeito. Um dia, o marido chegou lá com um pacote de polvilho pronto e ela não teve como escapar.

    Foi lá, fez a massa e na hora de fritar se preparou. Vestiu um lençol (deixou só um espaço para mãos e olhos), colocou chapéu, luvas, óculos e mais o que a sua criatividade permitiu. Só depois de ter ocorrido outro “desastre” foi na casa da minha sogra choramingar e foi que ficou sabendo que era só ter feito o procedimento correto (colocar o bolinho no oleo frio para fritar) que teria evitado todos estes acidentes.

    Este “causo” serve para exemplificar como é importante um procedimento de trabalho, ou como são importantes as “ordens de serviço” que a NR1 se refere. E muita gente, no nosso meio, continua a trabalhar os EPIs, lençóis, etc., quando era somente uma questão de modificar o procedimento e dar treinamento. Um “causo” para pensar, não é mesmo ?

    Gilmar Ortiz de Souza
    Engenheiro de Segurança e responsável pelo sistema de gestão de segurança da Divisão de Produção de Veículos Comerciais da DaimlerChrysler do Brasil.



: : Gilmar Ortiz de Souza é Engenheiro de Segurança formado pela FAAP - Fundação Armando Alves Penteado.

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